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Somos abrigos

Somos abrigos

Era uma manhã de inverno como qualquer outra. O frio gelava os ossos das massas que se arrastam para mais um dia de emprego, para mais um dia de venda de tempo, de corpos e vontades. Era mais um dia em que se troca o que se é pelo que se quer.

De cabeça baixa, de olhar pregado nas pedras gastas que me serviam de chão vi um homem de barba comprida e grisalha que ornamentava uma pele escura já queimada pelo sol e pelo fumo distraído dos cigarros consumidos e gastos pelo tempo.

O olhar era triste e espreitava-me tímido debaixo de um cobertor grosso, sujo e rasgado. À sua volta o vazio. Sem papel para escrever sonhos feitos de desilusão, sem pão para comer nem amor para fazer a digestão.

Aquele homem sem-abrigo, passou a ocupar e a habitar a minha mente devoluta. Ocupou todas as divisões vazias e empoeiradas que abandonavam os meus dias.

Quando regressava do trabalho, decidi passar pela mesma rua. Precisava voltar a vê-lo, desesperadamente. Levei-lhe um abraço na merenda, aquecido por um olhar de compaixão. Quando entrei dentro da sua tenda de cartão, segurou na minha mão, pediu-me que não partisse e foi então que lhe disse:
“Sai debaixo deste vão de escada, vem para longe daqui, percorre comigo esta estrada porque não é este o teu fim, deixa para trás esta ponte e vem, quero ser água na tua fonte”.

Olhou para mim a chorar, e eu, surpresa e sem vacilar estendi-lhe a mão devagar. Mas o homem sem esperança, que só conhece tempestades que chegam sem bonança, caiu no chão do luar, não se queria desplantar.

Mostrou-me as esmolas recebidas, os trapos que lhe deram, as noites mal dormidas e o mal que lhe fizeram.

De mão estendida e firme ajudei a levantar aqueles olhos cheios de mar. Segurou firme a minha mão, pele gelada queimada por pele quente, e num impulso enérgico e decido precipitou-se para mim. Voltou a encontrar vontade de sair do fim.

Raul Tomé

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