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Vícios

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Os meus vizinhos não me entendem. Ignoram os meus problemas e a minha falta de liquidez. Fazem pressão para que pague o condomínio quando o meu ordenado é quase uma reforma por invalidez. Dizem que é uma questão de justiça e de igualdade e que não pago porque me falta honestidade.

Logo eu que tenho de contar os trocos para o tabaco que me aconchega os dias em que o estômago se sente mais fraco.

Do banco mais do mesmo. Dizem que se não pagar a casa terei de sair e eu, preocupado, fujo para a café onde tenho os amigos e com eles converso só para me abstrair. Aproximo-me do balcão e peço uma cerveja, depois um favaios e um tinto só para fazer inveja.

A minha irmã ligou-me dizendo que tenho de lhe pagar o que me emprestou. E eu que já não vou trabalhar há dois dias, digo-lhe que estou arruinado, que terá de ter esperança e que quando vier a bonança pagarei cada cêntimo como se fosse um abastado rei.

Por agora distraio-me na batota com a rapaziada e trocamos sob a mesa o vintém ainda quente porque aqui não se fia a ninguém.

Na mercearia já não me fiam. Tenho o estômago colado às costas, porque o que é bom e se vende às postas a minha carteira não pode pagar. Como os cigarros do dia-a-dia, bebo o álcool que me aquece o corpo e entretenho-me com a jogatana que preenche a alma. E antes de abalar peço ao Abel um cafézinho para que o álcool não se entorpece no meu caminho até casa.

Sei que todos me criticam, mas cá no meu saber, que em nada lhes agrada, acho que uma pessoa sem vícios é pouco mais do que nada.

By Raul Tomé

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1 Comment

  1. Meu caríssimo amigo Raul Tomé…seu texto é a pura realidade de vida de tantas almas à deriva neste mundo material insensível à dor. Que importa quem passa mal?…Tem de haver pobres para orgulho dos ricos, como se o mal fosse obrigatório e a miséria sustentasse o orgulho de quem vai fazendo alguma «caridadezinha» … Mostrando que têm vontade de resolver o problema, que é afinal a razão da sua vaidade. Porque se não houver miséria ninguém pede nada e a importância de alguns deixa de existir…. Se houvesse vontade política e social tudo seria diferente e melhor… Parabéns por seu texto e humanismo. Obrigado. Abraço.

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